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08/06/2018 às 09:06
 

'Cidade da Copa' fica só no papel, e Arena segue no meio do nada

 

 

Único estádio fora de uma capital a receber jogos da Copa do Mundo de 2014, a Arena de Pernambuco foi erguida praticamente no meio do nada, em São Lourenço da Mata, distante 19 quilômetros do Recife, na Região Metropolitana. O projeto inicial previa a construção da Cidade da Copa e o início de um plano de desenvolvimento para a região. Mas isso nunca saiu do papel e tudo está do mesmo jeito desde o fim do torneio.

A equipe do G1 esteve no entorno da Arena, no fim de maio, e encontrou José Paulo Alves, de 65 anos. Ele cortava o mato para alimentar o gado que mantém em um sítio, à beira do Rio Capibaribe.

A casa em que vive com a esposa, Neide Maria, e o neto, Rinaldo, fica bem perto do estacionamento do estádio. Mesmo com essa proximidade, José afirmou que não gosta de futebol e despreza a construção.

Para construir a Arena de Pernambuco, palco de cinco partidas da Copa do Mundo, antigos vizinhos de José Paulo foram desalojados. Ele lembra que eram 286 famílias vivendo da agricultura, da criação de gado e peixes ornamentais.

O agricultor deixou a casa quando as obras começaram, em dezembro de 2010, e voltou há quase um ano. "A promessa é que teria muita vantagem com essa Arena, mais comércio, mais moradia, mas só vi piorar, porque tiraram uma escolinha e abandonaram a estrada que liga a gente à ponte de Penedo. Nunca vi fazerem nada bom para os pobres", lamentou.

José mora perto da Arena e diz que o governo prometeu e não ajudou ninguém na área (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

José mora perto da Arena e diz que o governo prometeu e não ajudou ninguém na área (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Sentimento de frustração

Esse sentimento de frustação é comum na região. Quando o governo estadual anunciou a construção do estádio, afirmou que era apenas o pontapé de um empreendimento bem mais ambicioso: a Cidade da Copa, primeiro modelo de "cidade inteligente no Brasil".

A ideia era desenvolver, ao redor da Arena, um complexo com prédios residenciais, universidade e centros comerciais, em até 25 anos. Hoje, no entanto, a paisagem é desoladora.

No contorno imediato do estádio, há apenas um imóvel abandonado, que não dá sinais sobre o antigo uso, uma pista para veículos bem asfaltada e uma ciclofaixa, mas quase ninguém as usa, além de poucas famílias assentadas à beira do Rio Capibaribe.

Hermógenes disse que a expectativa era alta, mas só  houve frustração para os comerciantes em São Lourenço da Mata (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Hermógenes disse que a expectativa era alta, mas só houve frustração para os comerciantes em São Lourenço da Mata (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

"A expectativa era alta, com a vinda de uma universidade, urbanização da beira do rio, agora é só mato. A área é mal iluminada quando não há partidas nem eventos", disse Hermógenes Cavalcanti, gerente de um posto de combustível às margens da BR-408, que fica próximo ao estádio.

O posto existe há 15 anos, junto com um restaurante. O gerente sonhou em expandir o negócio, construindo uma loja de conveniência e uma pousada. Os planos dele também ficaram no papel.

A quatro quilômetros da arena, foi construído um conjunto residencial, também à beira da rodovia. As unidades habitacionais começaram a ser entregues há quatro anos, e muita gente que investiu no empreendimento foi atraída pela promessa da Cidade da Copa.

Ednaldo mora em um condomínio a poucos quilômetros da Arena e se sente isolado (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Ednaldo mora em um condomínio a poucos quilômetros da Arena e se sente isolado (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

"A gente queria sair do aluguel e surgiu essa oportunidade. Achávamos que ia ficar movimentado por aqui, com outros condomínios, mas estamos isolados. É tranquilo, tem ar puro, mas fica distante de tudo. Minha mulher, que não sabe dirigir, pega ônibus para ir ao trabalho e aqui só passa uma linha", contou o motorista Ednaldo da Silva.

Por meio de nota, a Secretaria de Administração de Pernambuco informou que o contrato de concessão da área para a construção da Cidade da Copa foi rescindido em 2017. "A área é de propriedade do estado e terá, no tempo próprio, a utilização adequada", afirma no texto.

Área da Arena de Pernambuco, em São Lourenço da Mata, não recebeu nenhuma das obras anunciadas peolo estado (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Área da Arena de Pernambuco, em São Lourenço da Mata, não recebeu nenhuma das obras anunciadas peolo estado (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Por que São Lourenço?

A pergunta na época era pertinente. Afinal, a Arena de Pernambuco seria o único estádio erguido fora de uma capital, numa cidade com poucos habitantes (112 mil, segundo o IBGE). Além disso, não havia atrativos turísticos, hotel ou pousada e apenas uma via de acesso, a BR-408, com duas pistas de tráfego.

A resposta oficial era que o estádio faria parte da Cidade da Copa, que alavancaria o desenvolvimento da região. Nas palavras do então secretário estadual de Turismo, Alberto Feitosa, a ideia do governo era "desenvolver a economia da Região Metropolitana Oeste, com a retomada da atividade industrial, geração de emprego, qualificação de mão de obra e aumento da infraestrutura local".

O então governador de PE Eduardo Campos e a presidente na época, Dilma Roussef, na inauguração da Arena de Pernambuco (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

O então governador de PE Eduardo Campos e a presidente na época, Dilma Roussef, na inauguração da Arena de Pernambuco (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

Assim, foram gastos R$ 479 milhões para construir um estádio de 46 mil lugares, segundo o governo estadual, inaugurado em 20 de maio de 2013, com direito a troca de passes dentro do gramado entre o então governador do estado, Eduardo Campos, e a presidente da época, Dilma Rousseff.

Foi o último estádio a ser inaugurado entre os que sediaram a Copa das Confederações, em 2013. A construção correu a passos lentos, sendo marcada por greves. A obra teve o valor final contestado pelo Tribunal de Contas do Estado e investigado pela Polícia Federal.

Prejuízos

Além de a Cidade da Copa não ter saído do papel, o estádio nunca alcançou a receita esperada, gerando prejuízos e desinteresse na iniciativa privada. No plano de negócios original da Arena de Pernambuco, o valor projetado anual com data-base de maio de 2009 era de R$ 86.759.599, sendo R$ 73.254.163 de receitas operacionais e R$ 13.505.436 de receitas adicionais.

O contrato de Parceria Público-Privada (PPP) firmado com a Odebrecht para a construção e a gestão da arena foi rompido pelo governo estadual, ao custo indenizatório de R$ 246,8 milhões. Um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) a pedido do poder estadual embasou a decisão.

O relatório apontou que "a frustração de receitas decorreu da subutilização do equipamento". A Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer (Seturel) assumiu a gestão do estádio, com o objetivo de diversificar as atividades do espaço.

Segundo a assessoria de imprensa da Arena de Pernambuco, o estádio tem o custo de cerca de R$ 900 mil mensais. "Um número bem inferior aos R$ 2,2 milhões registrados assim que a Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer assumiu o equipamento. As receitas são variáveis e dependem da movimentação em relação a jogos, eventos e arrecadação com estacionamentos e concessões", informou ao G1 por meio de nota.

Arena de Pernambuco fica em São Lourenço da Mata (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Arena de Pernambuco fica em São Lourenço da Mata (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Agenda desanima

Logo na primeira partida oficial na arena, um jogo pela Copa das Confederações, entre Espanha e Uruguai, no dia 16 de junho de 2013, o G1 testou várias formas de chegar ao estádio (ônibus, metrô e táxi), e constatou desorganização e torcedores chegando atrasados.

Até hoje, várias obras de mobilidade não ficaram prontas, e muitos torcedores simplesmente não querem enfrentar o desgaste de ir até o local, que fica distante do Centro da capital e não há um serviço de transporte público que leve o público direto ao estádio.

De acodo com a Seturel, a arena teve 36 jogos oficiais em 2017, com público total de 204.802 pessoas, ou seja, cerca de 5,7 mil pessoas por partida. A renda média ficou em R$ 80.164,17.

Aula de zumba é um dos atrativos do Domingo na Arena (Foto: Jamil Gomes/Divulgação)

Aula de zumba é um dos atrativos do Domingo na Arena (Foto: Jamil Gomes/Divulgação)

Nos cinco primeiros meses de 2018, ocorreram 14 eventos na Arena de Pernambuco, além de jogos de futebol, como o Google Cloud e a Super Virada. No dia 27 de maio, aconteceu a 26ª partida de futebol do ano, quando Náutico enfrentou o Globo-RN pela Série C. Este número de jogos é recorde no estádio para os primeiros meses do ano, segundo a Seturel.

O Náutico chegou a ter um acordo assinado para realizar seus jogos na arena por 30 anos, que foi rompido. Mesmo assim, o time alvirrubro continuou jogando lá, assim como Santa Cruz e Sport receberam adversários na arena de forma esporádica.

No entanto, o Náutico já iniciou um processo de reforma dos Aflitos, tradicional sede do clube recifense. Enquanto isso, a gestão tenta manter a Arena de Pernambuco com agenda movimentada, implementando o projeto Domingo na Arena e atraindo eventos particulares. No total, foram 82 eventos em 2017, somando os jogos.

Comparativos

O Mineirão, em Belo Horizonte, reformado para a Copa do Mundo ao custo de R$ 695 milhões, segundo o Ministério do Esporte, recebeu, no mesmo período, 42 partidas do Cruzeiro, Atlético e URT, com público médio de 19.328.

Fora os jogos, o estádio recebeu 94 eventos, como shows de atrações internacionais (Aerosmith, Paul McCartney, Ed Sheeran), o Festeja, maior festival de música sertaneja do país, festas particulares e encontros corporativos.

Estádio do Mineirão, que também foi reformado para a Copa de 2014, recebeu mais de 90 eventos e 42 jogos em 2017 (Foto: Laura Bernardes/GloboEsporte)

Estádio do Mineirão, que também foi reformado para a Copa de 2014, recebeu mais de 90 eventos e 42 jogos em 2017 (Foto: Laura Bernardes/GloboEsporte)

Outra comparação pode ser feita com o Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. Reformado para o Mundial ao custo de R$ 1,4 bilhão, segundo o Ministério do Esporte, o estádio recebeu 22 jogos de futebol, em 2017, e 56 eventos, segundo Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer do Distrito Federal. Apesar de a obra de urbanização prometida para o entorno do estádio não ter saído do papel, a localização central transformou o Mané Garrincha em ponto turístico da cidade, recebendo visitas diariamente.

Situada em Salvador (BA), a Arena Fonte Nova foi reconstruída ao custo de R$ 689,4 milhões, segundo o Ministério do Esporte. O estado tem um dos campeonatos de futebol mais antigos do Nordeste e é bastante disputado. São 12 times na briga pelo título estadual, entre eles o Bahia, que realiza seus jogos na Fonte Nova.

Em 2017, o estádio recebeu 32 jogos, com média de público de 19.648 espectadores e arrecadação média por partida de R$ 475.467. Naquele ano, a arena sediou, também, 62 eventos não-esportivos, com público estimado de 458.278 pessoas, a exemplo da Campus Party Bahia e shows do Dire Straits Legacy, de Paul McCartney e o Festival de Verão 2017, gerando 32 mil empregos diretos e indiretos. Também no ano passado, a Fonte Nova promoveu 66 ações sociais, beneficiando 641.998 pessoas.

Sem empolgar

Empresário Edmundo Silva apostou na ideia da Cidade da Copa e montou um restaurante, mas está insatisfeito com a atual situação (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Empresário Edmundo Silva apostou na ideia da Cidade da Copa e montou um restaurante, mas está insatisfeito com a atual situação (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Diante dessas comparações, é possível entender os motivos pelos quais a agenda da Arena de Pernambuco não anima o empresário Edmundo da Silva Lima, dono de um restaurante espaçoso próximo ao estádio.

Desde 1995, ele administrava um restaurante às margens da BR-408 e teve o imóvel desapropriado para a construção da Arena. Com a indenização, decidiu comprar o terreno do outro lado da rodovia e reconstruir o empreendimento, já que tinha conquistado uma clientela fixa.

Empolgado com o Mundial e os futuros eventos que o estádio poderia receber, construiu um restaurante espaçoso, com dezenas de mesas. O investimento teve o retorno esperado, já pagou as contas da obra, mas, agora, Edmundo luta para manter o negócio. "Foi como um casamento [com a Copa], que acabou e fiquei na saudade", disse.

"Coloquei painel de energia solar para diminuir a conta de luz, também reduzi meu horário de atendimento. Faço o que posso para dar continuidade ao restaurante. É uma pena uma área tão grande que o governo poderia aproveitar melhor estar esquecida, mas ainda tenho esperança", afirmou.

 

 

https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/mato-e-entulho-persistem-e-projeto-de-cidade-no-entorno-da-arena-de-pernambuco-fica-so-na-promessa.ghtml

 
 
 
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